Estou voltando pra casa
- Rodrigo Baena
- Dec 23, 2025
- 2 min read

Onde é a minha casa?
Onde mora o meu lar?
Tenho caminhado com essa pergunta nos bolsos.
Num mundo onde mudar de cidade, de país, de idioma se tornou simples, acabamos por atravessar continentes… e, às vezes, perder o endereço de nós mesmos.
Comigo foi assim.
Quando saí do Brasil, em 2005, pensei que seria breve. Seis meses. Um inglês melhor e o regresso. Eu não fugia da minha vida — ela era cheia. São Paulo pulsava trabalho, amigos, família, viagens. Havia cansaço, sim. Trânsito, pressa, ruído. Mas havia também pertencimento.
Então a Inglaterra aconteceu.
E, com ela, o mundo abriu-se. Outras formas de amar, de viver, de construir família. Outras cadências. Outros silêncios. Eu próprio tornei-me outro. A vida não ficou melhor — ficou diferente. E isso mudou tudo.
Foi ali que entendi: apesar de ter nascido na cidade grande, o meu corpo ansiava pela natureza. O meu coração queria pequenas comunidades. Ruas onde se anda a pé. Um “olá” à senhora das frutas. Um aceno a quem passa todos os dias. Curiosamente, era a vida que a minha mãe conheceu antes da cidade grande. Simples e dura — dez irmãos numa casa pequena — mas cheia de laços, de vizinhos, de presença. Uma vida onde as pessoas se conheciam pelo nome.
E percebi que era isso que eu procurava.
Uma vida simples. Mais fácil. Mais viva.
Com espaço, com afeto, com conexão humana.
E a pergunta voltou, mais funda:
onde é o meu lar?
Depois de 21 anos fora do Brasil, aprendi que o lar não é um ponto no mapa. É um gesto. É onde criamos comunidade. Onde somos vistos. Onde pertencemos.
Mas há momentos em que o corpo pede chão.
Agora, a atravessar um divórcio, num país ainda jovem para mim, sem raízes profundas, o meu lar chama-me pelo nome antigo.
Hoje, o meu lar é o Brasil.
Mais precisamente, a casa da minha mãe, onde cheguei ontem.
E, por um instante, tudo ficou em silêncio.
Como se o mundo dissesse:
Você chegou.




Texto lindo Baena, me identifico muito.